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O egoísmo desmascarado (ou O Massacre da Quarentena Elétrica)

Você abre sua rede social favorita e lá estão, amigos e conhecidos, brindando com chopinho, viajando pra “ver” o frio, em festinhas animadas, ralando na academia, a programação é extensa. Às vezes usam a máscara, pra mostrar um suposto comprometimento no combate a terrível pandemia que nos assola. Como se bastasse. Outras vezes, nem isso, ligam o foda-se pra geral.

Imagens de aglomeros diversos Brasil afora estão cada vez mais comuns nestes dias tenebrosos. Pra mim, no entanto, é doloroso ver tanta gente pondo-se em risco – e pondo tantas outras pessoas em risco – em troca de algumas horas de entretenimento. É egoísta, é fútil, é constrangedor. E também é perigoso. Fã de filmes de horror, eu inevitavelmente relaciono esta galera com os jovens desavisados divertindo-se no camping de verão enquanto o serial killer se aproxima. Jasons microscópicos invadindo pulmões, aliens chocando seus ovos em órgãos internos, gremilins se multiplicando ad infinitum. Ai, que gente burra, ai, que cansaço.

 

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O plot é simples e bem conhecido: um grupo de amigos reunidos em algum lugar isolado se veem subitamente como vítimas indefesas nas mãos de um psicopata imortal com habilidades ninja e o poder da invisibilidade. O cara que alcança um velocista de 100 metros rasos com cinco passadas largas e tranquilas. O sujeito que rasga carne, nervo, músculo e osso como manteiga quente. A criatura que, a despeito de seu porte admirável de mais de 1,90m, consegue se esgueirar para dentro da sua casa e você só vai vê-lo quando o machado descer. É ele, a personificação do Jason Voorhees, cheio do ódio insano em seu coraçãozinho apodrecido. Um covid (sobre)humano.

 

(Eu fui uma criança weird que trocava qualquer produçãozinha da Disney por uma sessão de Sexta-Feira 13. Também me refestelava com A Hora do Pesadelo e seu Freddy Krueger, luvinha de unhas metálicas pontiagudas a postos para o ataque.)

 

Existem diversas teorias que apontam os motivos para gostarmos de obras de horror (filmes, séries, livros, enfim). Uma delas defende que gostamos de passar medo porque, quando a situação assustadora acaba, o alívio libera uma grande quantidade de endorfina no cérebro, causando bem-estar. Daí o apreço pelos scary movies. Também porque quando o filme acaba, o perigo já passou (ao contrário das festinhas quarentenárias).

 

Ao longo dos anos desenvolvi toda uma estratégia pra fugir das garras e das lâminas afiadas dos Jasons da vida real (é sério, até comecei a correr pra isso). Agora percebo que devo incluir mais uma linha de ação na hora de escapar da morte:  manter a maior distância possível dos cloroquiners de plantão. Mais do que um facão desembainhado, é a falta de uma máscara que faz meu coração palpitar de horror, atualmente.


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