A gente não tinha internet, smartphone, MTV, nem dinheiro pra comprar discos e revistas. Eram os anos 80 e nossas fontes primárias de cultura pop, música, cinema, celebridades era via rádio e programas de auditório. O Viva a Noite, do finado Gugu, era o ponto alto da semana.
Nós também não tivemos referências familiares
muito significativas quando se tratava da área do entretenimento. Quer dizer…
mamis me apresentou Hitchcock, Woody Allen e Kubrick, mas na área musical ela
era mais Jovem Guarda que Novos Baianos.
Nossos pais - meus e da Kelzinha, prima
inseparável - ouviam basicamente missa e sertanejo, nas rádios locais.
Sertanejo raiz, lógico, que até hoje levo Tonico e Tinoco, João Mineiro e
Marciano e César e Paulinho no coração.
Então veja bem, não me julgue mal. Nós queríamos
era rock´n roll, e para preencher este vazio existencial em nossas almas, este
desejo pela rebeldia, a contracultura, pelo polêmico e o controverso, nós
contávamos com… Roupa Nova, Biquíni Cavadão e Yahoo (procure saber).
Nosso encantamento com as performances da Sandra
de Sá e do Fábio Junior beiravam a idolatria. Mas todo nosso amor era reservado
ao grupo Dominó.
Como concluímos que Dominó era rock´n roll eu
nunca vou descobrir, mas era o que tinha para o momento.
Certa noite de sábado, enquanto dublávamos os
gritinhos de “Viva a Noiteeeee” de mr. Liberato, chamaram a atração principal
do programa, o Dominó, claro. Urros de histeria. O Afonso, band leader divoso e
topetudo, ostentando um mullet de respeito, anunciou música nova. Delírio.
Queríamos entrar na televisão, tamanho o furor.
Pois Afonso anunciou seu futuro novo sucesso com
pompa e circunstância. Era uma MÚSICA DE PROTESTO, no que minha comunistazinha
interior ainda não desabrochada (eu só tinha oito anos) gritou de emoção. A
música falava da atual situação do Brasil, das dificuldades, da indignação e do
desânimo de seu povo honesto e trabalhador. O título: Tô p da vida.
Aí eles cantaram e nós fizemos um esforço imenso
pera absorver de imediato toda aquela letra linda e cheia de significados. A
gente só queria saber aquela melodia primorosa de cor, pra cantar a plenos
pulmões na sacada, tendo como platéia o Capão Cagado (que é a localidade onde
minha prima residia).
Mas é claro que não rolou. Como ficamos
desoladas… a música era nova, de um disco novo, e provavelmente ia levar
semanas pra começar a tocar na rádio. Dormimos abatidas, mas no outro dia
Kelzinha despertou com uma ideia genial em mente: se havia alguém que poderia
nos ajudar, esse alguém seria o Geraldo.
O Geraldo era irmão
de Kelzinha, jovem adulto de seus 18, 20 anos, vivia nas baladas, bebia e
fumava, conhecia o mundo lá fora. É claro que Geraldo saberia a letra inteirinha
de tô p da vida.
Esperamos o moço acordar, lá pelo meio dia, e,
ansiosas, bloquinho e caneta em mãos, fomos até ele.
“Geraldo, Geraldo, Geraldo, presta atenção,
ajuda a gente!”, estrilou kelzinha, frenética.
“Hummmmfff”, bufou o
bom vivant, ressaqueadissimo.
“Sério, Geraldo,
presta atenção!”, insistia a menina.
“Sai daqui,
Kelzinha!”, ele gritou, atirando uma almofada em nossa direção.
“Oooow, mãe!”,
Kelzinha apelou para a progenitora dos dois. Sendo ela a caçulinha mimada, foi
atendida.
“Geraldo, presta
atenção na menina, tadinha!”, ordenou tia Zilda. Suspirando, Geraldo dignou um
olhar em nossa direção: “o que é?”
“Geraldo, eu nunca
te pedi nada (era mentira), mas a gente PRECISA da letra da nova música do
Dominó”, explicou a irmãzinha.
Geraldo resmungou
mais um pouco, respirou fundo, mas finalmente pegou o caderninho e começou a
escrever.
Risca daqui, rabisca dali, rasura, pensa, volta
a escrever. Foram uns quinze minutos da mais pura ansiedade infantil. Em breve,
teríamos nas mãos a tão sonhada daquele hino roqueiro com consciência política
que ameaça, mas não fala palavrão porque é feio e a família tradicional
brasileira reprovaria.
Finalmente, depois de tanta espera, Geraldo
repousa a caneta na mesa, suspira mais uma vez e anuncia: “Pronto, terminei”.
Agarramos o bloquinho com as mãozinhas ávidas.
Nele, jazia escrito uma única frase: “tô p da vida”.
Corremos amuadas para o quarto, de onde ainda
conseguíamos ouvir a gargalhada retumbante daquela alma cruel.
É meio irônico porque hoje levei uns três
segundos dando um Google pra conferir a letra de “Na raba toma tapão”. Venci na
vida e o céu (e o wifi) são meu limite.
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